sexta-feira, abril 13, 2012

Um nome para a história: Morreu o Maestro Emílio Porto.

Morreu o maestro e compositor Emílio Porto. A notícia caiu, inesperada, na quarta-feira à noite. Preparando-se para uns dias de descanso, numa viagem ao norte de Portugal, que horas antes, por mail, tinha comunicado aos seus amigos mais íntimos, e no meio de um ensaio que fazia, no “seu” Grupo Coral das Lajes do Pico, sucumbiu a ataque fulminante contra o qual nada se pôde fazer.
Nos seus 76 anos, (nasceu a 20 de Dezembro de 1935), Emílio Porto respirava vida e dinamismo, o que tornou ainda mais dolorosa a notícia do seu falecimento.

Natural da Ribeirinha, do Pico, onde hoje é sepultado, Emílio Porto notabilizou-se como Homem e como Músico. Depois do ensino primário, foi para o Seminário de Angra. Aí, desde cedo, sobressaíram os seus dotes musicais e ainda aluno, já era regente e ensaiava os alunos mais novos e colaborava com Edmundo Machado Oliveira na preparação do Orfeão e da Schola Cantorum do Seminário.

Ordenado sacerdote, teve especial influência, nos anos sessenta, na freguesia de São Caetano do Pico, com a renovação pastoral e litúrgica saída do Concílio Vaticano II. Frontal e directo, nunca temeu os poderes instituídos e, por coerência pessoal, acaba por pedir dispensa do ministério sacerdotal, o que, depois de muitas lutas e dificuldades, lhe foi concedido!

Completou os seus estudos, com licenciatura, em Setúbal e nunca deixou o grande ideal humanista e cristão que o norteava. Coerente e defensor de que para falar era preciso corresponder com agir, embrenhou-se na política açoriana, numa época bem difícil, na instauração da Autonomia açoriana. Assim, candidatou-se e foi eleito deputado regional, nas I e II legislaturas da Assembleia Regional, no grupo Parlamentar do PS.

Pedagogo por vocação, o ensino era a sua paixão e muitos dos seus alunos, em diversas ocasiões, têm realçado esta vertente importante da sua vida: “ensinar não tem tempo nem lugar! Ensinar é tornar universal o cantinho onde estamos”!

Nunca deixou a música e sempre dizia que ninguém escreve uma partitura para ficar na gaveta. Regeu capelas polifónicas, em muitos lados, mas em 1983, por altura da Semana dos Baleeiros, surge o Grupo Coral das Lajes do Pico. Era para ser uma apresentação, no decorrer duma festa, mas logo se torna um projecto de tão grande êxito que nunca mais parou.

Emílio Porto é o rosto do Coral, mas é acima de tudo a alma da iniciativa. E não se fica por casa.

Neste mesmo Correio dos Açores, em 2010, numa grande entrevista concedida a Afonso Quental, Emílio Porto diria que andaram pelo Pico, São Miguel, Terceira, São Jorge e Faial. Para fora destas ilhas, cantaram em Vila do Conde, em Santiago do Cacém, Vila Nova de Santo André, Sines, Mafra, Cangas – Galiza e Toronto. Foram presenças, quase todas, de carácter cultural e feitas em intercâmbios com outros coros.

E tudo isto porque, segundo ele mesmo afirmou naquela entrevista, pensamos que estamos a preservar e a prestigiar as nossas tradições. Ao tomar a música popular, e fazer que seja possível o seu canto polifónico, nada mais fazemos do que valorizar essa própria música. Alguns dirão que essa música deve ser cantada tal e qual o é nas suas origens – o folclore. Penso que não. E sigo o rumo de outros mestres em música, como Lopes-Graça, Joel Canhão, Manuel Faria e outros, com outros coros.

O Grupo Coral da Lajes edita vários CD, o último dos quais com uma recolha extraordinária sobre as músicas do Espírito Santo em várias ilhas.

Manuel Emílio Porto é condecorado pelo Presidente Jorge Sampaio com o grau de Comendador da Ordem de Mérito e, dentro de portas é agraciado com a insígnia de Mérito da Região Autónoma dos Açores. Mas nada disso lhe retira a sua proverbial humildade e a sua maneira de estar, sempre perto de todos, sempre de porta aberta a quantos lhes pediam um conselho ou um acorde musical. E quando falava da sua casa e da sua hospitalidade dizia sempre: “vem e traz um amigo também”.

Celebrando-se este anos os 150 anos da fundação do Seminário de Angra e preparando-se uma visita à cidade património de um grupo de antigos alunos daquele estabelecimento de ensino, das décadas de 50/60 do século passado, Emílio Porto estava na linha da frente, nos projectos e nos sonhos, com intervenção activa e permanente, na rede social onde contacta o Grupo.

Emílio Porto pode e deve ser considerado um revolucionário da música coral nos Açores. Ele fez aproximar a polifonia do gosto popular e elevou as músicas simples do povo a patamares nunca dantes atingidos, com os seus arranjos polifónicos.

Será lembrado como alguém que viveu a música numa tal dimensão que fez dela um ponto de encontro de diversas sensibilidades aparentemente inconciliáveis.

Mas, além disso, e acima disso tudo, fica o seu exemplo de cidadão comum que viveu a dimensão do Pico e dos Açores, com a sua família, com a dor da morte de sua primeira esposa e com a alegria perene e contagiante que emanava autoridade difícil de suplantar.

Como escritor, os textos que deixa, as conferências que proferiu, as apresentações de livros que fez e as crónicas que escreveu, são de um testemunho invulgar que não cabe aqui neste apontamento.

Os Açores estão mais pobres, mas como escrevia ontem o poeta açoriano Artur Goulart, o coro dos anjos precisava de um maestro. E Manuel Emílio Porto foi o escolhido!

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